Friday, September 29, 2006

Eu não sei quem te perdeu

Quando veio,
Mostrou-me as mãos vazias,
As mãos como os meus dias,
Tão leves e banais.
E pediu-me
Que lhe levasse o medo,
Eu disse-lhe um segredo:
"Não partas nunca mais".

E dançou,
Rodou no chão molhado,
Num beijo apertado
De barco contra o cais.

Abraçou-me
Como se abraça o tempo,
A vida num momento
Em gestos nunca iguais.
E parou,
Cantou contra o meu peito,
Num beijo imperfeito
Roubado nos umbrais.

E uma asa voa
A cada beijo teu,
Esta noite
Sou dono do céu,
E eu não sei quem te perdeu.

Friday, September 22, 2006

Viva a Chuva!


Viva a chuva, viva o trânsito, as filas e as esperas infindáveis!
Viva a estrada escorregadia e o bailado dos despistes!
Viva a corrida apressada, num esforço inglório para fugir a mais um aguaceiro traiçoeiro.
Viva o guarda-chuva que insistes em não usar.
Viva o Outono e a sempre difícil resignação ao fim de mais um verão, ao fim da praia, das roupas ligeiras, do sol, das esplanadas ensolaradas, dos corpos bronzeados e daquela alegria contagiante que só o sol traz consigo.
Viva o Outono, viva o regresso da melancolia, o retorno a um quotidiano que por momentos te esforçaste por esquecer.
Viva a esperança de mais um fim-de-semana, só mais um, para matar saudades do verão.
Viva o programa caseiro, patrocinado por uma chuvada que insiste em bater na janela da tua sala.
Viva o prazer contido numa tão simples quanto banal combinação de um sofá e de uma manta.
Viva o home-cinema.
Viva a torrada e o café bem quente.

Acima de tudo, VIVA A CHUVA e viva a vida que com ela vem.

Tuesday, September 12, 2006

1º Olhar vazio

Um primeiro olhar vazio, sobre o nada, para começar com algo importante.
O nada, um imenso nada que de tão grande, nada é, e por isso mais vazio se torna.

No entanto, o nada consegue ser a melhor coisa do mundo quando o fazemos.
O quê: olhar o vazio!
Esvaziarmo-nos de tudo, limpar a mente e voltar a por o nosso verdadeiro eu no controlo, sem os esquemas complicado e visões distorcidas que a nossa mente, por vezes, perversamente cria.

É como limpar a lente dos óculos que tens 24 horas por dia nos olhos, mas já não limpas há 15 dias.
De repente tudo te parece mais claro, óbvio até, assim, num esfregar de "olhos".
E tudo com um gesto quase insignificante, sem técnica ou ciência.
Bolas, mas porque é que não o fiz antes?

Olha o vazio, o imenso nada, limpa-te e depois olha para dentro de ti.
Por fim lembra-te que lá estiveste.